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Campinas - SP

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  • Coletivo Cidade e Memória

Abertura da Exposição [lume] de Ernesto Bonato



[ lume ]

Figurar é introduzir no Tempo algo fora do Tempo, o que faz disso um ato fundamentalmente amoroso. . . . um desenho riscado sobre a pele rugosa de algodão, fuligem e cola. De poeira e luz, um rastro se assenta na fenda que o gesto abre, de resvalo, na penumbra __Detritos__ Um olho busca um olho; uma mão, outra mão. Resíduos de carvão e giz, esmagados pela pressão das falanges contra a superfície rude e informe, ficam ali no chão a espera dos séculos, ou de um sopro de ar . A mão humana, a inescapável mão humana, busca a forma com febre e espanto, tensionando entre os dedos objetos mágicos que conduzem a luz, pelo toque, sobre o corpo umbroso. [ Conhece a ti mesmo ] é a inscrição no Templo de Apolo, em Delfos, onde a Pítia, envolta no fumo sagrado que emana das profundezas da terra, vê e antevê. Em outro tempo e lugar, uma mão trêmula como a chama do fogo que a ilumina, risca com troços de carvão a parede desigual e granulada de uma caverna com formas de leões, rinocerontes, ursos. No solo, trezentos séculos depois, ainda dormem as partículas negras desprendidas no ato __Testemunhos__ [ Conhecer é lembrar ] (?) Permanecemos ainda nessa caverna. Mergulhamos profundamente em suas sombras, munidos de uma luz quebradiça que se desfaz ao toque e produz formas, figuras, talvez fantasmas. Um rio profundo flui como uma serpente nos grotões interiores desse abismo. Dele, só ouvimos o som violento e vago da corredeira contra as pedras. Esse rio é a própria vitalidade. É preciso banhar-se neste que é sempre outro, e cuidar para que o torrão de luz não se dissolva em suas águas por completo. Isso é [ Lembrar-se de si ] e aceitar o risco. Longe dali, o Tempo, arenoso, encobriu rostos pintados com cera colorida em tabuinhas de madeira egípcia, preservando-os do Sol e da visão dos Homens por quase vinte séculos. Trazidos à luz, essas existências frágeis vivem, apesar de tudo, pelos nossos olhos. Um olho busca um olho; uma mão, outra mão __Cápsulas do Tempo__ Agora mesmo, um olho é desenhado com carvão e giz, uma boca é pintada com pigmento e óleo . . . Podemos supor ainda, de modo obscuro e íntimo, que esse olho veja, que essa boca nos fale ? reclamar a essas formas-espíritos, irrigadas pela energia vital transmitida pelo gesto e pela fantasia do artista, que elas mesmas vivam, ou ao menos evoquem a presença de algo vivo? Na superfície opaca e poeirenta de um muro pintado, resta uma figura como um curioso e eloquente espelho e o inevitável encontro entre duas imagens que se olham. [ Conhecer é reconhecer ] (?) Encontrar é reencontrar (?) Uma fresta de luz tênue cinde a escuridão porosa e quieta do interior da cela antes de apagar-se por completo. Por um instante, o lugar é animado pela visão das partículas de poeira que volteiam pelo ar como mundos provisórios em expansão, como um sinal de que a cada instante e em cada lugar, infinitamente, algo está sendo criado e destruído para sempre. Acontece que esse mesmo feixe de luz vai encontrar, no ruinoso muro dessa mesma cela, uma figura riscada à giz que resiste ao tempo e ao apagamento com toda sua fragilidade e força. Mesmo quando a sombra do esquecimento houver dissipado o imaculado e breve lume, mesmo que por muito tempo não haja olhos para ver, ou um outro rosto que a confronte, essa figura desenhada a giz e carvão sobre o muro já irremediavelmente corrompido pelo pó e pelo salitre, por um certo tempo, existirá.

[ e.b. nov/2018 ]


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